quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
O professor alfabetizador no contexto da alfabetização no Brasil.
RESUMO
Por considerar-se que uma educação de qualidade depende principalmente da ação pedagógica desenvolvida em sala de aula e que essa ação, por sua vez, está diretamente ligada à formação do professor, propõe-se, neste texto, uma reflexão sobre o contexto de formação do professor alfabetizador, com base na Lei 9394/96 – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). O estudo possibilitou a constatação de que, apesar de polêmica e de suscitar críticas, a LDB trouxe avanços à formação docente, abrindo espaço principalmente para a formação em serviço, na qual o professor amplia o seu "saber fazer" e passa a melhor compreender o "para que fazer".
Palavras-chave: formação do professor; alfabetizador; Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional – LDB.
1 INTRODUÇAO
Toda criança tem direito a uma educação de qualidade, a qual mostra não só o sucesso do aluno, como também o da própria escola.
Entretanto, apesar do reconhecimento desse direito e das muitas medidas que vêm sendo tomadas para garanti-lo, ainda existem elevados índices de evasão e repetência escolar. E, de modo geral, constata-se que o fracasso escolar se constitui, em última instância, no fracasso da alfabetização, hoje entendida como expressão e compreensão de significados através da linguagem escrita.
São velhos conhecidos de todos os entraves e as dificuldades existentes na escola, assim como seus mecanismos de produção do fracasso. Embora o assunto faça parte de um discurso já um tanto desgastado, não há como se iludir fechando os olhos e fazendo de conta que o problema não existe. Existe e é estrutural, sendo profundamente relacionado, em qualquer país, a fatores sociais, políticos, econômicos e culturais.
2 O PROFESSOR ALFABETIZADOR
O papel de professor foi mudando ao longo da história: daquele que professa uma crença, passou a ser o eterno aprendiz. A ação de ensinar e aprender são essenciais para o desenvolvimento e perpetuação da natureza humana.
Para alguns teóricos, o significado de papel é muito mais amplo. É toda a função, seguida de um conjunto mais ou menos característico de comportamento próprio para aquela função que se desempenha em um dado momento de sua vida.
A todo o instante estamos desempenhando diversos papéis; de pai, filho, esposo (a), vizinho, esportista, torcedor, professor, aluno, entre outros. Apesar de sermos sempre a mesma pessoa, em cada situação há uma característica, uma forma de ser que nos diferencia das demais. Embora haja algo de constante nas pessoas em diferentes situações, a forma de ser no papel de pai, não é a mesma quando se desempenha o papel de filho, e o mesmo ocorre com o papel de professor, que difere do papel de aluno ou, ainda, quando se assiste ao seu esporte favorito, e assim por diante.
Na formação dos professores/alfabetizadores de jovens e adultos e o conseqüente reflexo na administração de sua própria formação continuada e os objetivos específicos; analisar as políticas governamentais que anunciam oportunizar, às professoras, acompanhamento técnico e materiais, possibilitando-lhes condições reais de administrarem sua própria formação; identificar a dimensão das políticas públicas educacionais brasileiras em consonância com a política econômica e social do modelo de política neoliberal na formação dos professores.
Diante disso, cabe ao professor alfabetizador introspectivamente refletir sobre tão complexa e importante a tarefa de promover o uso comunicativo dos textos, e de todo o resto; reflexão, compreensão, automatização, enfim, da promoção de experiências educadoras de natureza distintas, invariavelmente segmentadas para os conteúdos observáveis e em conformidade com o planejamento. Emília Ferreiro aponta que; "Ao ingressar na série onde começa a ocorrer o ensino sistemático das letras a criança já detém uma grande competência lingüística que não é considerada." Construtivismo de Piaget a Emília Ferreiro- 3ª ed.1994. O que acontece, no âmbito do ensino de alfabetização e séries iniciais do Distrito de Barrgem Leste, comunidade aonde observamos durante alguns anos esta relação de trabalho em educação, é que temos definido proposições sem uma análise profunda relativa ao processo sistemático de alfabetização. Precisamos tornar ou eleger a alfabetização como uma base de sustentação para o prosseguimento de uma vida escolar. Parece ambicioso alocar recursos e direcioná-los as séries iniciais. Mas é um fato, que não estamos conseguindo atingir aos objetivos propostos nos planejamentos de ensino, para a alfabetização, e dói saber que estamos fomentando uma corrente de analfabetos. Em nossas escolas temos professores cada vez mais escravos da filosofia da "pedagogia do exemplo" ao contrário. Estamos incoerentemente tentando montar um quebra-cabeça faltando peças. Resta um compromisso maior de todos os educadores no sentido de restabelecer um redirecionamento para o entendimento da condução realista ao enfocar que o domínio da linguagem e escrita não são facilmente canalizáveis e, portanto precisamos enfrentar esta barreira.
3 A LEI DE DIRETRIZES E BASES DA EDUCAÇAO NACIONAL E A FORMAÇAO DE PROFESSORES
O Título VI da LDB, que trata dos profissionais da Educação, compõe-se de sete artigos, alguns dos quais estão mais diretamente ligados à formação do
professor alfabetizador, ou seja, daquele que atua nas séries iniciais (1º e 2º ciclos) do ensino fundamental. Em síntese, esses artigos estabelecem:
- os fundamentos da formação dos profissionais da educação;
- os níveis de formação docente exigidos para a atuação dos professores na educação básica;
- as competências dos Institutos Superiores de Educação;
- o tempo mínimo para a prática de ensino, na formação dos docentes da educação básica;
- as estratégias para valorização dos profissionais da educação (estatuto, planos e carreira, condições de trabalho).
Nos limites da presente reflexão, serão objeto de consideração os artigos 61, 61 e 67.
4 ALFABETIZAÇAO NO BRASIL
Dentro das instituições escolares, meninos e meninas têm crescido acreditando numa diferença natural entre os sexos, em suas limitações e habilidades. Ainda são insuficientes estudos que demonstram a ação governamental em confirmar, via educação, os sistemas de gênero. Muito se sabe sobre o estrito controle governamental sobre as práticas escolar via seleção de métodos, programas e currículos escolares, materiais didáticos e de orientação dos docentes. Arroyo (1988), por exemplo, descreve como a ação do governo, no caso de Getúlio Vargas, fez uso de estereótipos de gênero para a expansão do ensino. Aqui, a trilogia mulher-vocação-magistério foi amplamente defendida. Apesar de esclarecedores, nestes estudos, a questão de gênero ainda é abordada de forma acidental.
Noutras realidades, como na inglesa e americana, estudos na área de gênero (Taylor, 1980; Clarricoates, 1987; Evans, 1990) têm evidenciado o poder dos materiais didáticos em reproduzir uma lógica sexista. Como mencionado, no Brasil, tal análise ainda carece de maiores investigações. Neste esforço, o presente artigo buscou analisar as relações de gênero presentes nas práticas pedagógicas orientadas pelas políticas educacionais entre as décadas de 20 e 50, no Estado de Minas Gerais. Este período caracterizou-se pelos ideais do Movimento da Escola Nova, com a adoção obrigatória dos métodos de alfabetização analíticos (Método Global).
CONCLUSAO
Até o presente estágio da pesquisa percebemos a expressiva contribuição dos recursos didáticos na construção e legitimação de versões de uma natureza masculina ligada ao âmbito público (trabalho, aventuras, provedor, poder) e de uma natureza feminina afeita ao âmbito do privado (casa, cuidado-família). Entendendo que estes materiais eram comprados e distribuídos sob a tutela do Estado, pode-se afirmar que estes, certamente, se adequavam aos ideais de seus financiadores.
Não se quer dizer aqui que uma vez divulgados nos livros didáticos, estes estereótipos eram aceitos tranqüilamente pela população da época, sem resistências.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Projeto em Barbacena promove união pela alfabetização de crianças
Projeto em Barbacena promove união pela alfabetização de crianças
Ricardo Beghini - Estado de Minas
O pequeno Daniel Henrique, de 7 anos, vai se lembrar para sempre de uma tarde ensolarada de maio de 2009. Era sexta-feira e, como acontece toda semana, os alunos de duas turmas do 2º ano do ensino fundamental da Escola Municipal Doutor Martim Paulucci, de Barbacena, no Campo das Vertentes, trocam as salas de aula por um espaço bem diferente para aprender. Caminhando e entoando canções escolares pelas ruas do Bairro João Paulo II, um dos mais carentes do município, o grupo de 45 estudantes levou menos de 10 minutos para chegar à casa de Daniel.
Como um bom anfitrião, o menino mostrou aos colegas de turma o brinquedo preferido, a bicicleta. No quarto, exibiu orgulhoso o pôster do Pica-Pau, a toalha do Homem-Aranha e a colcha do Batman. O esperto gatinho de estimação também atraiu olhares dos companheiros. Depois, todos seguiram para a garagem e, acomodados no chão, acompanharam outro momento importante de um método pouco convencional de alfabetizar.
Foi quando a mãe de Daniel, a dona de casa Neri Carvalho, viveu seus 15 minutos de mestre e passou a ler para turma o clássico A lebre e a tartaruga. Depois de um rápido debate sobre a obra, atribuída ao fabulista grego Esopo, e pouco antes de retornar à escola, os alunos apreciaram o refrigerante e os quitutes, especialmente preparados por dona Neri.
Entre os convidados estava a professora Eliane de Paula Rocha, de 35 anos, responsável pelas visitas semanais às casas dos alunos. Ela percebeu que a interação entre a comunidade e escola tem grande potencial para alfabetizar. “No lugar de aprender o B de baleia – sendo que Minas não tem mar para que ele a veja –, o menino assimila melhor o B de Bruno, seus brinquedos e sua história”, explica.
Paralelamente, a iniciativa contribui para resgatar hábito de leitura entre família, que pode aproveitar o fim de semana para ler conjuntamente outros clássicos cedidos pela professora. “Os pais são os primeiros educadores”, assinala. A atividade não termina aí. Dentro da sala de aula, na semana seguinte, os estudantes registram numa folha, que traz a foto do aluno anfitrião, as impressões da atividade, redigindo sobre o brinquedo, o animal de estimação, a história contada pela mãe e a casa. Além disso, a professora trabalha a construção de frases a partir dos dados coletados na rua e no bairro percorrido.
Tomando por base, principalmente, a obra do educador Paulo Freire, que defende a alfabetização a partir da realidade do aluno, o projeto de Eliane, batizado de Minha escola, minha vida, começou a ser aplicado no ano passado. A professora lecionava para 18 alunos do 1º ano, na faixa etária de 6 a 7 anos, da Escola Municipal José Benedito Campara, distrito de Mantiqueira do Palmital. Na Zona Rural de Barbacena, ela conquistou o impressionante índice de 90% de alfabetização.
Os alunos foram avaliados no fim de 2008 numa prova diagnóstica, seguindo as diretrizes do Centro de Alfabetização e Escrita (Ceale) da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O resultado obtido por Eliane é duplamente significativo. Em primeiro lugar, o clico de alfabetização termina no 3º ano do ensino fundamental.
Além disso, o número foi obtido numa escola de zona rural, onde são escassos os recursos visuais. “O mundo letrado dessas crianças é muito mais pobre. As ruas não têm nomes e o comércio não possui identificação. Isso não ocorre na área urbana, onde as crianças são bombardeadas por outdoors, placas de propagandas, possibilitando uma inserção precoce no mundo letrado”, ressalta a idealizadora.
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
9 respostas sobre alfabetização
21 de 2008 Novembro d 2008
Texto de Meire Cavalcante e Juliana Bernardino (edição)
Inserir todas as crianças de seis anos em um ambiente alfabetizador foi um dos principais objetivos da aprovação do Ensino Fundamental de 9 anos, em fevereiro de 2006. A medida beneficiou crianças que não tinham acesso à Educação Infantil, ficando, muitas vezes, completamente distantes da cultura escrita - o que poderia representar um obstáculo para a sua experiência futura de alfabetização.
Apesar de a medida ser um passo importante, Telma Weisz, criadora do Programa de Formação de Professores Alfabetizadores (Profa), do Ministério da Educação, acredita que ainda há muito a aprimorar na questão da alfabetização, sobretudo porque a tarefa não é apenas dos professores das séries iniciais. "Estamos sempre nos alfabetizando, a cada novo tipo de texto com o qual entramos em contato durante a vida", afirma.
Por essa razão, tratar leitura e escrita como conteúdo central em todos os estágios é a maior garantia de sucesso que as escolas podem ter para inserir os estudantes na sociedade. É o que fazem muitas professoras de 1ª a 4ª série de Catas Altas (MG), capacitadas pelo Programa Escola que Vale. Mesmo recebendo crianças que não nunca tiveram contato com o chamado mundo letrado antes da 1ª série, os educadores conseguem alfabetizar ao final de um ano.
"Um fator determinante para a alfabetização é a crença do professor de que o aluno pode aprender, independentemente de sua condição social", diz Antônio Augusto Gomes Batista, diretor do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita da Universidade Federal de Minas Gerais. Esse olhar do docente abre as portas do mundo da escrita para os que vêm de ambientes que não ofereceram essa bagagem.
No município de São José dos Campos (SP), professores de Educação Infantil tentam evitar essa defasagem, lendo diariamente para os pequenos. Assim, por meio de brincadeiras, criam situações das quais a língua escrita faz parte. Já em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, duas especialistas de Língua Portuguesa e Ciências tiveram de correr atrás do prejuízo com turmas de 5ª série que ainda apresentavam problemas de escrita. Para isso, aliaram muita leitura a um trabalho sobre prevenção à aids, que fazia sentido para eles e tinha uma função social.
Com base nessas experiências, relatadas a seguir, e na opinião de especialistas, respondemos a nove questões sobre alfabetização, mostrando ser possível formar leitores e escritores competentes em qualquer estágio do desenvolvimento.
1- Meus alunos de 1ª série não têm contato com a escrita. Por onde começo?
O pouco acesso à cultura escrita se deve às condições sociais e econômicas em que vive grande parte da população. O aluno que vê diariamente os pais folheando revistas, assinando cheques, lendo correspondências e utilizando a internet tem muito mais facilidade de aprender a língua escrita do que outro cujos pais são analfabetos ou têm pouca escolaridade. Isso ocorre porque ao observar os adultos a criança percebe que a escrita é feita com letras e incorpora alguns comportamentos como folhear livros, pegar na caneta para brincar de escrever ou mesmo contar uma história ao virar as páginas de um gibi. Cabe à escola oferecer essas práticas sociais aos estudantes que não têm acesso a elas. O ponto de partida para democratizar o contato com a cultura escrita é tornar o ambiente alfabetizador: a sala deve ter livros, cartazes com listas, nomes e textos elaborados pelos alunos (ditados ao professor) nas paredes e recortes de jornais e revistas do interesse da garotada ao alcance de todos. Esses são alguns exemplos de como a classe pode se tornar um espaço provocador para que a criança encontre no sistema de escrita um desafio e uma diversão. Outra medida para democratizar esses conhecimentos em sala de aula é ler diariamente para a turma. "A criança lê pelos olhos do professor - porque ainda não pode fazer isso sozinha -, mas vai se familiarizando com a linguagem escrita", explica a educadora Patrícia Diaz, da equipe pedagógica do Centro de Educação e Documentação para Ação Comunitária (Cedac), em São Paulo.
2- Quando posso pedir que as crianças escrevam?
Elas devem escrever sempre, mesmo quando a escrita parece apenas rabiscos. Ao pegar o lápis e imitar os adultos, elas criam um "comportamento escritor". E, ao ter contato com textos e conhecer a estrutura deles, podem começar a elaborar os seus. No primeiro momento, as crianças ditam e você, professor, escreve num papel grande. Além de pensar na forma do texto, nessa hora os estudantes percebem, por exemplo, que escrevemos da esquerda para a direita. "Mostro que a escrita requer um tempo de reflexão antes de ser colocada no papel", afirma Cleonice Maria Rodrigues Magalhães, professora de 1ª série da Escola Municipal Agnes Pereira Machado, em Catas Altas (MG). Ela participou do Programa Escola que Vale, que capacitou professores de 1ª a 4ª série do município durante dois anos e meio. Antes da escrita, as crianças devem definir quem será o leitor. Assim, quando você lê o texto coletivo, elas imaginam se ele compreenderá a mensagem. Nas primeiras produções haverá palavras repetidas, como "daí". Pelo contato diário com textos, os alunos já são capazes de revisar e corrigir erros. "Com o tempo, antes mesmo de ditar, eles evitam repetir palavras e pensam na melhor forma de contar a história", afirma Rosana Scarpel da Silva, professora do Infantil IV (6 anos), da Escola Municipal de Educação Infantil Maria Alice Pasquarelli, em São José dos Campos. Em paralelo, é importante convidar a garotada a escrever no papel. Isso dá pistas valiosas sobre seu desenvolvimento.
3- Como faço todos avançarem se os níveis de conhecimento são muito diferentes?
Não há nada melhor em uma turma que a heterogeneidade. Como os níveis de conhecimento são variados, existe aí uma grande riqueza para ser trabalhada em sala. Organizar os alunos em grupos e duplas durante as atividades é fundamental para que eles troquem conhecimentos. Mas essa mistura deve ser feita com critérios. É preciso agrupar crianças que estejam em fases de alfabetização próximas. Quando você coloca uma que usa muitas letras para escrever cada palavra trabalhando com outra que usa uma letra para cada sílaba, a discussão pode ser produtiva. Como elas não sabem quem está com a razão, ambas terão de ouvir o colega, pensar a respeito, reelaborar seu pensamento e argumentar. Assim, as duas aprendem. Isso não ocorre, no entanto, se os dois estiverem em níveis muito diferentes. Nesse caso, é provável que o mais adiantado perca a paciência e queira fazer o serviço pelo outro.
4- Posso alfabetizar minha turma de Educação Infantil?
Sim, desde que a aprendizagem não seja uma tortura. Participar de aulas que despertem a curiosidade e envolvam brincadeiras e desafios nunca será algo cansativo. Em turmas que têm acesso à cultura escrita, a alfabetização ocorre mais facilmente. Por observar os adultos, ouvir historinhas contadas pelos pais e brincar de ler e escrever, algumas crianças chegam à Educação Infantil em fases avançadas. Por isso, oferecer acesso ao mundo escrito desde cedo é uma forma de amenizar as diferenças sociais e econômicas que abrem um abismo entre a qualidade da escolarização de crianças ricas e pobres. Dentro dessa concepção, a rede municipal de São José dos Campos implementou horas de trabalho coletivo para a formação continuada dos professores. Há um coordenador pedagógico por escola e uma equipe técnica responsável pelo acompanhamento dos coordenadores. As crianças de 3 a 6 anos atendidas pela rede aprendem, brincando, a usar socialmente a escrita. Em sala, os professores lêem diariamente e promovem brincadeiras. Os pequenos identificam com seu nome pastas e materiais, usam crachás, produzem textos coletivos que ficam expostos nas paredes e têm sempre à mão livros e brinquedos. "Nossas atividades incentivam a pensar sobre a escrita, tornando-a um objeto curioso a ser explorado. E tudo de forma dinâmica, porque a dispersão é rápida", conta Clarice Medeiros, professora do Infantil III (5 anos) da escola Maria Alice Pasquarelli. "No ano passado, quando recebi os alunos de 3 anos, eles já sabiam diversos poemas e conheciam Vinicius de Moraes. Também identificavam as diferenças entre alguns gêneros textuais", lembra Liliane Donata Pereira Rothenberger, professora do Infantil II (4 anos). De acordo com a orientadora pedagógica Helena Cristina Cruz Ruiz, o objetivo é desenvolver o comportamento leitor desde cedo para que os alunos se comuniquem bem, produzam conhecimentos e acessem informações.
5- Faz sentido oferecer textos a estudantes não-alfabetizados?
Canções, poesias e parlendas são úteis para se chegar à incrível mágica de fazer a criança ler sem saber ler. Quando ela decora uma cantiga, pode acompanhar com o dedinho as letras que formam as estrofes. Conhecendo o que está escrito, resta descobrir como isso foi feito. Se o aluno sabe que o título é Atirei o Pau no Gato, ele tenta ler e verificar o que está escrito com base no que sabe sobre as letras e as palavras - sempre acompanhado pelo professor. O leitor eficiente só inicia a leitura depois de observar o texto, sua forma, seu portador (revista, jornal, livro etc.) e as figuras que o acompanham e imaginar o tema. Pense que você nunca viu um jornal em alemão. Mesmo sem saber decifrar as palavras, é possível "ler". Se há uma foto de dois carros batidos, por exemplo, deduz-se que a reportagem é sobre um acidente. Ao mostrar vários gêneros, você permite à criança conhecer os aspectos de cada um e as pistas que trazem sobre o conteúdo. Assim, ela é capaz de antecipar o que virá no texto, contribuindo para a qualidade da leitura.
6- Como seleciono e uso os textos em sala?
Segundo Patrícia Diaz, do Cedac, é preciso ter critérios e objetivos bem estabelecidos ao escolher os textos. Por exemplo: se ao tentar diversificar os gêneros você ler um por dia, os alunos não perceberão as características de cada um. "O ideal é que a turma passeie por diversos gêneros ao longo do ano, mas que o professor trace um plano de trabalho para se aprofundar em um ou dois", afirma. Patrícia sugere a narração como base para o trabalho na alfabetização inicial, pois ela permite ao aluno aprender sobre a estrutura da linguagem e do encadeamento de idéias. A escolha dos textos deve ser feita de acordo com o repertório da turma. É preciso verificar se a maioria dos alunos passou ou não pela Educação Infantil, que experiência eles têm com a escrita e que gêneros conhecem. Durante a leitura de uma revista, por exemplo, é importante chamar a atenção para títulos, legendas e fotos. Assim, as crianças aprendem sobre a forma e o conteúdo. Se o texto é sobre plantas, percebem que nomes científicos aparecem em itálico. "Por isso é fundamental trabalhar com os originais ou fotocópias", ressalta Patrícia. Adaptar os textos também não é recomendável. As crianças devem ter contato com obras originais, uma vez que, ao longo da vida, serão elas que cruzarão o seu caminho. Se um texto é muito difícil para turmas de uma certa faixa etária, o melhor é procurar outro, sobre o mesmo assunto, de compreensão mais fácil.
7- Ao fim da 1ª série, todos devem estar alfabetizados?
Não necessariamente, apesar de ser recomendável. Se a criança foi exposta a textos e leituras variadas e teve oportunidade de refletir sobre a língua e produzir textos, é bem provável que ela termine essa série alfabetizada. Mas isso depende de outros fatores, como ter cursado a Educação Infantil e recebido apoio dos pais em casa. "Crianças que não têm esse contato com textos e que não convivem com leitores podem precisar de mais tempo para aprender o sistema de escrita. Mas minha experiência mostra que nenhuma criança leva mais de dois anos para isso", diz a educadora Telma Weisz, de São Paulo. Como na educação não existem fôrmas em que se encaixem as crianças, é papel da escola oferecer condições para que elas se desenvolvam, sempre respeitando o ritmo de cada uma. Quando se adota o sistema de ciclos, isso ocorre naturalmente, pois os alunos têm possibilidade de se aperfeiçoar no ano seguinte. Quando não há essa chance, eles correm o risco de engrossar os índices de reprovação. O aluno pode iniciar a 2ª série ainda tendo que melhorar a sua compreensão sobre o sistema de escrita, mas ao fim do segundo ano a escola teve tempo suficiente para ensinar a todos.
8- Preciso ensinar o nome das letras?
Sim. Como a criança poderá falar sobre o que está estudando sem saber o nome das letras? Ter esse conhecimento ajuda a turma a explicar qual letra deve iniciar uma palavra, por exemplo. Para ensinar isso, basta citar o nome das letras durante conversas corriqueiras. Se a criança está mostrando a que quer usar e não sabe o nome, basta que você a aponte e diga qual é. Trata-se de algo que se aprende naturalmente e de forma rápida, sem precisar de atividades de decoreba que cansam e desperdiçam o seu tempo e o do aluno.
9- Como ajudo alunos de 5ª série que ainda não lêem nem escrevem bem?
É angustiante para o professor receber crianças com problemas de alfabetização. Por não conhecer o assunto, acredita que a escrita incorreta é indício de que elas não se alfabetizaram. Mas nem sempre essa avaliação é verdadeira. O mais comum é a criança já dominar a base alfabética, mas ter sérios problemas de ortografia e interpretação. Daí a impressão de que ela não sabe ler e escrever. Foi essa experiência por que passaram as professoras Valéria de Araújo Pereira, de Língua Portuguesa, e Jaidê Canuto de Sousa, de Ciências, ambas da Escola Estadual Maria Catharina Comino, em Taboão da Serra (SP). Em 2005, elas lecionavam para uma turma de 5ª série de recuperação de ciclos com muitos problemas de escrita, o que as motivou a procurar a Diretoria de Ensino para participar do programa Letra e Vida, oferecido pela rede paulista a professores de 1ª a 4ª série. "Fiquei surpresa com a insistência das duas. Como havia vagas, abrimos uma exceção e valeu a pena", diz Silvia Batista de Freitas, coordenadora-geral do programa na Diretoria de Ensino da cidade. O curso iniciou em março. No segundo semestre, a turma de alunos foi distribuída nas salas regulares. Com o objetivo de trabalhar a escrita, Valéria e Jaidê elaboraram um projeto sobre aids. Os alunos assistiram a vídeos, debateram e levantaram o que sabiam e o que gostariam de saber sobre o assunto. As leituras foram sistemáticas e diárias, com pesquisas em livros, revistas, enciclopédias, internet e panfletos informativos - gênero escolhido para ser o produto final do projeto. "Leitura e escrita não são apenas conteúdos de Língua Portuguesa. São práticas necessárias em todas as disciplinas e em todas as séries", diz Jaidê. "Por isso, temos a responsabilidade de conhecer o modo como os alunos aprendem e assim estimulá-los a ser leitores e escritores mais competentes", conclui Valéria.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
O prazer da leitura
Gaiolas ou Asas – A arte do voo ou a busca da alegria de aprender
Porto, Edições Asa, 2004
Alfabetizar é ensinar a ler. A palavra alfabetizar vem de "alfabeto". "Alfabeto" é o conjunto das letras de uma língua, colocadas numa certa ordem. É a mesma coisa que "abecedário". A palavra "alfabeto" é formada com as duas primeiras letras do alfabeto grego: "alfa" e "beta". E "abecedário", com a junção das quatro primeiras letras do nosso alfabeto: "a", "b", "c" e "d". Assim sendo, pensei a possibilidade engraçada de que "abecedarizar", palavra inexistente, pudesse ser sinônimo de "alfabetizar"...
"Alfabetizar", palavra aparentemente inocente, contém a teoria de como se aprende a ler. Aprende-se a ler aprendendo-se as letras do alfabeto. Primeiro as letras. Depois, juntando-se as letras, as sílabas. Depois, juntando-se as sílabas, aparecem as palavras...
E assim era. Lembro-me da criançada a repetir em coro, sob a regência da professora: "bê-á-bá; bê-e-bê; bê-i-bi; bê-ó-bó; bê-u-bu"... Estou a olhar para um postal, miniatura de um dos cartazes que antigamente se usavam como tema de redação: uma menina deitada de bruços sobre um divã, queixo apoiado na mão, tendo à sua frente um livro aberto onde se vê "fa", "fe", "fi", "fo", "fu"...
Se é assim que se ensina a ler, ensinando as letras, imagino que o ensino da música se deveria chamar "dorremizar": aprender o dó, o ré, o mi... Juntam-se as notas e a música aparece! Posso imaginar, então, uma aula de iniciação musical em que os alunos ficassem a repetir as notas, sob a regência da professora, na esperança de que, da repetição das notas, a música aparecesse...
Todo a gente sabe que não é assim que se ensina música. A mãe pega no bebé e embala-o, cantando uma canção. E a criança percebe a canção. O que o bebé ouve é a música, e não cada nota, separadamente! E a evidência da sua compreensão está no facto de que ele se tranquiliza e dorme – mesmo nada sabendo sobre notas!
Eu aprendi a gostar de música clássica muito antes de saber as notas: a minha mãe tocava-as ao piano e elas ficaram gravadas na minha cabeça. Somente depois, já fascinado pela música, fui aprender as notas – porque queria tocar piano. A aprendizagem da música começa como percepção de uma totalidade – e nunca com o conhecimento das partes.
Isto é verdadeiro também sobre aprender a ler. Tudo começa quando a criança fica fascinada com as coisas maravilhosas que moram dentro do livro. Não são as letras, as sílabas e as palavras que fascinam. É a história. A aprendizagem da leitura começa antes da aprendizagem das letras: quando alguém lê e a criança escuta com prazer. A criança volta-se para aqueles sinais misteriosos chamados letras. Deseja decifrá-los, compreendê-los – porque eles são a chave que abre o mundo das delícias que moram no livro! Deseja autonomia: ser capaz de chegar ao prazer do texto sem precisar da mediação da pessoa que o está a ler.
Num primeiro momento, as delícias do texto encontram-se na fala do professor. Usando uma sugestão de Melanie Klein, o professor, no ato de ler para os seus alunos, é o "seio bom", o mediador que liga o aluno ao prazer do texto. Confesso nunca ter tido prazer algum em aulas de gramática ou de análise sintáctica. Não foi nelas que aprendi as delícias da literatura. Mas lembro-me com alegria das aulas de leitura. Na verdade, não eram aulas. Eram concertos. A professora lia, interpretava o texto, e nós ouvíamos, extasiados. Ninguém falava.
Antes de ler Monteiro Lobato, eu ouvi-o. E o bom era que não havia exames sobre aquelas aulas. Era prazer puro. Existe uma incompatibilidade total entre a experiência prazerosa da leitura – experiência vagabunda! – e a experiência de ler a fim de responder a questionários de interpretação e compreensão. Era sempre uma tristeza quando a professora fechava o livro...
Vejo, assim, a cena original: a mãe ou o pai, livro aberto, a ler para o filho... Essa experiência é o aperitivo que ficará para sempre guardado na memória afectiva da criança. Na ausência da mãe ou do pai, a criança olhará para o livro com desejo e inveja. Desejo, porque ela quer experimentar as delícias que estão contidas nas palavras. E inveja, porque ela gostaria de ter o saber do pai e da mãe: eles são aqueles que têm a chave que abre as portas de um mundo maravilhoso!
Roland Barthes faz uso de uma linda metáfora poética para descrever o que ele desejava fazer, como professor: maternagem – continuar a fazer aquilo que a mãe faz. É isso mesmo: na escola, o professor deverá continuar o processo de leitura afetuosa. Ele lê: a criança ouve, extasiada! Seduzida, ela pedirá: Por favor, ensine-me! Eu quero poder entrar no livro por minha própria conta...
Toda a aprendizagem começa com um pedido. Se não houver o pedido, a aprendizagem não acontece. Há aquele velho ditado: É fácil levar a égua até ao meio do ribeirão. O difícil é convencer a égua a beber. Traduzido pela Adélia Prado: Não quero faca nem queijo. Quero é fome. Metáfora para o professor.
Todo o texto é uma partitura musical. As palavras são as notas. Se aquele que lê é um artista, se ele domina a técnica, se ele desliza sobre as palavras, se ele está possuído pelo texto – a beleza acontece. E o texto apossa-se do corpo de quem ouve. Mas se aquele que lê não domina a técnica, se luta com as palavras, se não desliza sobre elas – a leitura não produz prazer: queremos logo que ela acabe.
Assim, quem ensina a ler, isto é, aquele que lê para que os seus alunos tenham prazer no texto, tem de ser um artista. Só deveria ler aquele que está possuído pelo texto que lê. Por isso eu acho que deveria ser estabelecida nas nossas escolas a prática dos "concertos de leitura". Se há concertos de música erudita, jazz – por que não concertos de leitura? Ouvindo, os alunos experimentarão o prazer de ler.
E acontecerá com a leitura o mesmo que acontece com a música: depois de termos sido tocados pela sua beleza, é impossível esquecer. A leitura é uma droga perigosa: vicia... Se os jovens não gostam de ler, a culpa não é só deles. Foram forçados a aprender tantas coisas sobre os textos – gramática, usos da partícula "se", dígrafos, encontros consonantais, análise sintáctica – que não houve tempo para serem iniciados na única coisa que importa: a beleza musical do texto. E a missão do professor?
Acho que as escolas só terão realizado a sua missão se forem capazes de desenvolver nos alunos o prazer da leitura. O prazer da leitura é o pressuposto de tudo o mais. Quem gosta de ler tem nas mãos as chaves do mundo. Mas o que vejo a acontecer é o contrário. São raríssimos os casos de amor à leitura desenvolvido nas aulas de estudo formal da língua.
Paul Goodman, controverso pensador norte-americano, diz: Nunca ouvi falar de nenhum método para ensinar literatura (humanities) que não acabasse por matá-la. Parece que a sobrevivência do gosto pela literatura tem dependido de milagres aleatórios que são cada vez menos frequentes.
Vendem-se, nas livrarias, livros com resumos das obras literárias que saem nos exames. Quem aprende resumos de obras literárias para passar, aprende mais do que isso: aprende a odiar a literatura.
Sonho com o dia em que as crianças que lêem os meus livrinhos não terão de analisar dígrafos e encontros consonantais e em que o conhecimento das obras literárias não seja objeto de exames: os livros serão lidos pelo simples prazer da leitura.
Estimular a leitura é o primeiro passo para incentivar a escrita
TextoMeire Cavalcante e Juliana Bernardino (edição)
fonte: site educar para crescer
Inserir todas as crianças de seis anos em um ambiente alfabetizador foi um dos principais objetivos da aprovação do Ensino Fundamental de 9 anos, em fevereiro de 2006. A medida beneficiou crianças que não tinham acesso à Educação Infantil, ficando, muitas vezes, completamente distantes da cultura escrita - o que poderia representar um obstáculo para a sua experiência futura de alfabetização. Apesar de a medida ser um passo importante, Telma Weisz, criadora do Programa de Formação de Professores Alfabetizadores (Profa), do Ministério da Educação, acredita que ainda há muito a aprimorar na questão da alfabetização, sobretudo porque a tarefa não é apenas dos professores das séries iniciais. "Estamos sempre nos alfabetizando, a cada novo tipo de texto com o qual entramos em contato durante a vida", afirma. Por essa razão, tratar leitura e escrita como conteúdo central em todos os estágios é a maior garantia de sucesso que as escolas podem ter para inserir os estudantes na sociedade. É o que fazem muitas professoras de 1ª a 4ª série de Catas Altas (MG), capacitadas pelo Programa Escola que Vale. Mesmo recebendo crianças que não nunca tiveram contato com o chamado mundo letrado antes da 1ª série, os educadores conseguem alfabetizar ao final de um ano. "Um fator determinante para a alfabetização é a crença do professor de que o aluno pode aprender, independentemente de sua condição social", diz Antônio Augusto Gomes Batista, diretor do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita da Universidade Federal de Minas Gerais. Esse olhar do docente abre as portas do mundo da escrita para os que vêm de ambientes que não ofereceram essa bagagem. No município de São José dos Campos (SP), professores de Educação Infantil tentam evitar essa defasagem, lendo diariamente para os pequenos. Assim, por meio de brincadeiras, criam situações das quais a língua escrita faz parte. Já em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, duas especialistas de Língua Portuguesa e Ciências tiveram de correr atrás do prejuízo com turmas de 5ª série que ainda apresentavam problemas de escrita. Para isso, aliaram muita leitura a um trabalho sobre prevenção à aids, que fazia sentido para eles e tinha uma função social. Com base nessas experiências, relatadas a seguir, e na opinião de especialistas, respondemos a nove questões sobre alfabetização, mostrando ser possível formar leitores e escritores competentes em qualquer estágio do desenvolvimento.
A aprendizagem nunca termina
Esta é a opinião da psicóloga Telma Weisz, que vê a aquisição do sistema de escrita como um processo contínuo
TextoMeire Cavalcante e Juliana Bernardino (edição)
A psicóloga Telma Weisz
Doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo, Telma Weisz foi a criadora do Programa de Formação de Professores Alfabetizadores (Profa), lançado em 2001 pelo Ministério da Educação. Hoje coordena um programa semelhante, o Letra e Vida, na Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. Referência em alfabetização, Weisz acredita que formar leitores e gente capaz de escrever é uma tarefa de todos da escola: coordenadores, gestores e professores de todas as séries e disciplinas. "Eu diria que leitura e escrita são o conteúdo central da escola e têm a função de incorporar a criança à cultura do grupo em que ela vive". Os pais também não podem permanecer alheios, e devem ler todos os dias para as crianças. "Quem passa a primeira infância ouvindo leituras interessantes se apropria com mais facilidade da linguagem escrita", defende a especialista.
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
É importante que mesmo não sabendo escrever da forma “correta”, os alunos tentem e arrisquem, pois é assim que eles irão aprender qual a forma ideal de se escrever. É dessa forma que eles vão experimentando letras e formando palavras que eles julgam estar escritas corretamente.
É legal que as crianças escrevam textos de historias que elas já sabem de cor, pois assim elas não ficam preocupadas no que escrever e sim como escrever. Dessa forma elas passam a refletir qual a melhor letra a ser usada para formar determinada palavra.
É sempre importante pedir que os alunos digam o que estão escrevendo e que apontem com o dedo, assim saberemos como ele esta pensando ao escrever e formular a palavra.
Diagnostico na alfabetização inicial
Os diagnósticos são fundamentais, já que é através deles que o professor percebe o que as crianças já sabem e o que não sabem com relação a escrita. E dessa forma ele planeja as atividades que ira dar de acordo com as necessidades de sua turma. Esse diagnostico pode ser feito através de ditados, como fez o professor desse vídeo.
Logo depois que o ditado acabe é importante que o professor, já pegue o que os alunos fizeram e já analise o que elas fizeram.Chamar os alunos para saber o que eles queriam dizer quando escrevem determinadas palavras também é interessante. É a partir daí que percebemos as hipóteses que as crianças utilizam ao escrever
domingo, 15 de novembro de 2009

Processo da alfabetização infantil é tema de livro e debate
da Folha Online
A obra traz uma discussão dos estudos da psicóloga argentina Emilia Ferreiro, uma das mais importantes pesquisadoras dos processos de aquisição da língua escrita pelas crianças, com ênfase na produção de textos escritos de maneira autônoma.
As ideias de Emília Ferreiro revolucionaram a pedagogia porque desviou o enfoque do "como se ensina" para o "como se aprende", colocando a escrita como objeto sócio-cultural de conhecimento e tirando da escola o monopólio da alfabetização. A partir de então o professor passou a perceber que o que a criança pensa da escrita também influencia na aprendizagem. Desta forma, caiu por terra a crença de que a alfabetização começava e acabava entre as quatro paredes da sala de aula e que a aprendizagem do aluno dependia tão somente da aplicação correta de um método de como se deve ensinar a ler e a escrever.
O livro "Emilia Ferreiro" trata do início da aquisição da língua escrita, segundo uma perspectiva psicolingüística e cognitiva, onde a criança vai descobrindo as propriedades da escrita através de um processo construtivo e o desenvolvimento desta aprendizagem varia de criança para criança.
"Emilia Ferreiro"
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
Analfabetismo no Brasil só acaba em 20 anos, revela Ipea
Índice de brasileiros que não leem nem escrevem caiu de 17,2% para 10% da população
Vinte anos seriam o tempo necessário para o Brasil conseguir eliminar o analfabetismo. O índice relacionado ao problema caiu em 16 anos – de 1992 para 2008 – passando de 17,2% para 10% da população, mas isso significa que ainda existem cerca de 14 milhões de brasileiros acima de 15 anos incapazes de ler e escrever um bilhete simples. Essa é a medida internacional para se classificar o analfabeto.
Os dados foram divulgados nesta quarta-feira (7), na terceira análise feita pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) sobre a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) de 2008, que também abordou Gênero e Migração.
A análise do Ipea mostra que a taxa de analfabetismo está caindo 0,45 pontos percentuais ao ano. Mas a queda não está acontecendo por mérito das políticas públicas. Segundo o texto, a redução não ocorre entre indivíduos da mesma geração. A esperança do Brasil para a redução do analfabetismo é a morte da população idosa analfabeta.
Segundo André Lázaro, o principal programa na área é o “Brasil Alfabetizado”, que terá 2 milhões de alunos em 2009. De acordo com o secretário, o maior contingente de analfabetos está no Nordeste. Entre os estados, o líder é a Bahia, com 1,8 milhão, seguido por São Paulo, com 1,5 milhão. Minas vem em terceiro lugar no país, com 1,3 milhão.
Para a professora de Sociologia da UFMG, Danielle Cireno Fernandes, a política de educação voltada para adultos no Brasil é ineficiente. Ela acredita que deveria ser implantado algum tipo de estímulo pecuniário, como o Bolsa-Família ou o Pró-Jovem, também para a população mais velha.
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Programa revela avanços da alfabetização em Minas
Os dias se passavam sem que Ruan Giovani Alves, de 8 anos, aprendesse a ler e escrever. Só conseguiu quando uma professora generosa resolveu escrever exercícios no caderno dele e ensiná-lo as letras, sem permitir que ele deixasse de freqüentar as aulas com alunos da sua idade. Essa lição da professora Maria Cunha de Ardana e outros bons exemplos levaram a Escola Estadual Necésio Tavares, do Bairro Alto Vera Cruz, na Região Leste de Belo Horizonte, a entrar na lista das melhores da capital classificadas no Programa de Avaliação da Alfabetização (Proalfa), divulgada quarta-feira. Na rede estadual de ensino, a situação avançou: 72,5% dos alunos com oito anos matriculados no 3º ano do ensino fundamental sabem ler e escrever, contra 48,7% em 2006. Dos 27,5 que ainda têm dificuldade, 13,8% estão na classificação mais baixa: lêem apenas palavras soltas e não conseguem entender a frase.
A Escola Estadual Dr. Ovídio de Andrade, em Ipatinga, no Vale do Aço, é a primeira colocada entre as 2.450 avaliadas, com 719,93 pontos de proficiência em uma tabela com média de 500 e máximo de 800. A meta da Secretaria Estadual de Educação é acabar com a categoria de pior colocação até 2010 e chegar a 89% de crianças lendo e escrevendo segundo critérios recomendáveis para a idade. Para a secretária estadual, Vanessa Guimarães, é preciso comemorar os avanços de 2006 para cá, quando o resultado começou a ser medido no mesmo padrão. O aumento do percentual de alunos de escolas estaduais que mostram conhecimento recomendável é estímulo para a busca de avanço maior. “Já foi uma vitória e sabemos que, ao propor meta para melhorar, estamos nos lançando diante de uma aventura que vai exigir de todos um esforço grande.” Entre os alunos da rede municipal, os que tiveram desempenho recomendável foram 57%. Apesar de estar abaixo da média estadual, houve melhoria com relação aos 42,7% de 2006.
Para tentar melhorar os índices, a secretaria mantém 200 especialistas para ajudar as escolas a montar estratégias. O Proalfa tem informações de todos os municípios, todas as escolas e cada aluno. Recursos para reformas físicas também são liberados, segundo ela, principalmente para escolas do Norte de Minas e do Vale do Jequitinhonha. A classificação no exame acompanha a pobreza das regiões do estado. Das 46 superintendências de educação, a de Pirapora, no Vale do São Francisco, está na lanterna. As melhores colocadas são a de Monte Carmelo, no Alto Paranaíba, que lidera a lista da rede estadual, e a de São Sebastião do Paraíso, no Sul de Minas, primeira colocada entre os avaliados de escolas municipais. A secretária admite que as classes iniciais estavam fora do foco do governo. “Não apenas em Minas, mas no país todo foram criados modelos e houve o afrouxamento do sistema que permitiu formar crianças que não sabiam ler.”
Bom exemplo
Não foram recursos nem facilidades que levaram a escola Necésio Tavares a ocupar a boa posição em BH, com 654,85 pontos de proficiência. Depois de conversas com a equipe e de comprovar que havia jovens de até 14 anos que não conseguiam compreender frases, a diretora Marli do Carmo de Melo resolveu mudar. Tomou coragem para fazer um levantamento com a opinião dos pais sobre a administração, abriu as portas da escola para eles, instituiu encontros festivos para confraternização dos professores e reativou a biblioteca com empréstimos estendidos à comunidade.
Mensalmente, ela aplica um simulado aos alunos, instrumento usado para reavaliação. “Mas o melhor mesmo é ter amor por isto aqui, saber ouvir críticas e dividir tudo com a equipe”, diz, revelando o segredo para manter boa qualidade no ensino de 668 alunos (100 deles em horário integral) em uma área pobre e com poucos recursos. Recompensa que pode ser percebida no desenvolvimento do pequeno Ruan. “Gosto de animais e não falto à escola”, resume o menino curioso, que tem um tempo diferente dos outros, mas consegue ler um texto de seis frases.
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
O que explica o fracasso da alfabetização?
Em uma sala de aula, a professora pede que seus alunos escrevam um simples ditado. Apreensivo, Joãozinho olha para os lados e, sem ter outra opção, começa a rabiscar no papel uma seqüência de letras que, juntas, formam palavras ininteligíveis. Joãozinho não sabe ler nem escrever. Ele está na 4ª série.
A situação fictícia descrita acima é facilmente identificável por muitos professores da rede pública no Brasil. Afinal, por mais que a frieza dos números aponte que 18% das crianças que chegam à 4ª série não estão alfabetizadas, é o professor quem sente na pele o drama de não conseguir ensinar crianças que freqüentam a escola diariamente a ler e a escrever corretamente. Mas por que isso acontece? Quais são as causas do fracasso da alfabetização no Brasil?
Universalização do Ensino Fundamental
Sempre que o assunto surge na pauta das políticas educacionais, passamos pela questão da universalização do Ensino Fundamental, cujo processo se iniciou a partir dos anos 1970 e se consolidou na década de 1990. Com o acesso à escola facilitado, muitas crianças que vivem em condições sociais mais vulneráveis passaram a freqüentar as salas de aula. As deficiências culturais desses alunos, decorrentes de um ambiente familiar em que os pais fazem pouco ou nenhum uso da leitura e da escrita, acabam tendo impacto direto em suas condições de aprendizado.
Um erro comum nesse tipo de análise é colocar a culpa na defasagem lingüística do aluno quando, na verdade, é a escola que fracassou em sua tarefa de alfabetizar. Como a universalização do Ensino Fundamental tornou as salas de aula mais heterogêneas, as escolas não aprenderam ainda a lidar com toda a diversidade cultural de seus alunos. “A maioria das crianças brasileiras atendidas pelas redes públicas de ensino tem acesso restrito à escrita, desconhece muitas de suas manifestações e utilidades. Por isso é importante que a escola, pela mediação do professor, proporcione aos alunos o contato com diferentes gêneros e suportes de textos escritos e lhes possibilite vivência e conhecimento”, explica Ceris Ribas da Silva, pesquisadora do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (Ceale), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Para Zoraide Faustinoni da Silva, pesquisadora do Cenpec, os professores falham ao tratar todos seus alunos da mesma forma. “Numa sala de aula existem alunos que sabem relacionar som e escrita, aqueles que não sabem e outros que escrevem, mas têm problemas de ortografia. Sem propor um diagnóstico para conhecer as dificuldades de cada um dos seus alunos, fica difícil alfabetizá-los.”
Formação de professores e condições de ensino
A falta de preparo dos professores também é apontada como um sério problema no processo de alfabetização. Para tentar capacitá-los melhor para a tarefa de ensinar as crianças a ler e escrever, o MEC criou, em 2001, o Programa de Formação de Professores Alfabetizadores (Profa). Mas, de acordo com Ceris, existe um problema estrutural maior, presente ainda na faculdade. “Sabemos que os alunos dos cursos de Pedagogia não saem preparados para ensinar as crianças a ler e a escrever. A formação superior do profissional da educação ainda não conseguiu desenvolver propostas que equilibrem teorias e metodologias de ensino adequadas, que conciliem a inovação e a tradição. É preciso, ao mesmo tempo, estar aberto às novidades (como procurar diferentes metodologias de ensino e aprendizagem), mas também desenvolver uma postura crítica e reflexiva como característica do profissional da educação”. Contudo, Ceris reconhece que falta um plano de carreira e salários dignos para que os professores possam se dedicar ao trabalho.
Aliado ao preparo ineficiente de boa parte dos professores, as condições das escolas públicas também se tornam um empecilho para a aprendizagem. “É fácil de constar como a maioria das escolas do país não são espaços agradáveis, atrativos e humanizados”, diz Ceris. Para uma formação de qualidade, ela defende uma ampliação maior do tempo de escolaridade. “A entrada da criança cada vez mais cedo na escola e a sua permanência em tempo integral seria o ideal. O que não pode são alunos pobres terem apenas quatro ou três horas de aula por dia”, acredita.
Métodos de alfabetização
Um outro fator freqüentemente apontado pelos especialistas para explicar o porquê de muitos alunos chegarem à 4ª série sem saber ler nem escrever é o método de alfabetização implementado nas escolas. Variações à parte, as metodologias podem ser agrupadas em dois grupos: os de marcha sintética, que parte dos elementos menores da língua (letra, fonema, sílaba) e os de marcha analítica, que têm como ponto de partida a palavra, a frase ou o conto. O primeiro método prevaleceu nas escolas públicas até a década de 1980, quando ele passou a ser questionado e foi perdendo espaço para o segundo, que passou a exercer mais influência ao levar em consideração para o processo de alfabetização o conceito de letramento, ou seja, o uso da leitura e da escrita nas diferentes práticas sociais. “Ao entrar em contato com textos que têm um significado social (jornais, propagandas, recados), a criança amplia o vocabulário, entende o significado das palavras e ganha maior fluência na leitura e na escrita”, explica Zoraide.
Contudo, nos últimos anos, o método de marcha sintética vem se tornando o vilão da alfabetização. “O letramento é uma conquista que não pode ser abandonada, mas é preciso chamar a atenção para a relação entre som e escrita e os aspectos fonéticos da língua”, acredita Zoraide. De fato, os métodos de base fônica mais recentes se baseiam na análise da relação entre letras e sons, assim como no desenvolvimento da fluência em leitura, do vocabulário e da compreensão. De qualquer forma, Ceris trata de contemporizar a questão. “Diante desses debates eu fico pensando como seria bom se os problemas da alfabetização pudessem ser resolvidos por um método seguro e eficaz. Já se pensou assim em diferentes momentos da história da nossa educação e pouco ou nada foi mudado. Acredito que as metodologias de ensino, por si mesmas, não são suficientes para assegurar resultados positivos, pois dependem sempre da sensibilidade do professor, de uma organização coletiva da escola e das redes de ensino”, esclarece.
ANalFAbeTIsmo IBGE
Educação
Analfabetismo não recuou em 2008, aponta IBGE
18 de setembro de 2009
Apesar do insistente discurso pró-educação do governo, a taxa de analfabetismo no Brasil permaneceu praticamente inalterada em 2008 em relação ao ano anterior. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), divulgada nesta sexta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), havia cerca de 14,2 milhões de analfabetos com mais de 15 anos de idade no Brasil em 2008, quando a taxa foi estimada em 10%. Em 2007, a taxa foi de 10,1%.
As disparidades regionais, no que diz respeito ao analfabetismo, não diminuíram no ano passado, quando a região Nordeste apresentava uma taxa de 19,4%, quase o dobro da nacional. Porém, segundo destaca o documento de divulgação da Pnad, o Nordeste foi "a única região a apresentar queda expressiva" na taxa de analfabetismo no ano passado em relação a 2007, quando chegava a 19,9%.
Já a taxa de analfabetismo funcional, representada pela proporção de pessoas de 15 anos ou mais de idade com menos de quatro anos de estudos completos, foi estimada em 21% em 2008, ante 21,8% em 2007. No ano passado, ainda havia 30 milhões de analfabetos funcionais no Brasil.
A pesquisa - A Pnad é realizada anualmente e investiga os temas de habitação, renda e trabalho, associados a aspectos demográficos e educacionais. A pesquisa tem seus primórdios em 1967, quando foi iniciada apenas na área do Rio de Janeiro, e na atualidade é realizada em âmbito nacional, por meio de uma amostra de domicílios.
No levantamento divulgado nesta sexta-feira, foram pesquisadas 391.868 pessoas e 150.591 unidades domiciliares, distribuídas por todo o país. A parte de rendimento da Pnad aperfeiçoa a estimativa de renda das famílias usada nas contas nacionais. Além disso, a Pnad é utilizada na estimativa da população brasileira. A pesquisa ainda é tomada como base para o estudo chamado Síntese de Indicadores Sociais, que o IBGE divulgará em outubro.
(Com Agência Estado)
Ponto de vista: A implosão da bravata
"Quem vier depois de mim vai ter de fazer muito mais pela educação", disse o presidente Lula há uma semana. "O paradigma mudou." No caso da taxa de analfabetismo, informou nesta sexta-feira o IBGE, mudou para pior. Os próximos governos terão de fazer muito mais que o atual, não porque o paradigma ficou mais elevado, mas porque a multidão de analfabetos cresceu. Lula já confessou que costumava recorrer a bravatas. "Para quem está na oposição, é uma coisa muito natural", alegou. Errado. Nenhuma fraude é natural. Nenhum oposicionista tem o direito de usar argumentos fantasiosos. Muito menos um chefe de governo.