terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Projeto em Barbacena promove união pela alfabetização de crianças

Quarta-feira 29 de julho de 2009 - Estado de Minas -

Projeto em Barbacena promove união pela alfabetização de crianças
Ricardo Beghini - Estado de Minas


O pequeno Daniel Henrique, de 7 anos, vai se lembrar para sempre de uma tarde ensolarada de maio de 2009. Era sexta-feira e, como acontece toda semana, os alunos de duas turmas do 2º ano do ensino fundamental da Escola Municipal Doutor Martim Paulucci, de Barbacena, no Campo das Vertentes, trocam as salas de aula por um espaço bem diferente para aprender. Caminhando e entoando canções escolares pelas ruas do Bairro João Paulo II, um dos mais carentes do município, o grupo de 45 estudantes levou menos de 10 minutos para chegar à casa de Daniel.

Como um bom anfitrião, o menino mostrou aos colegas de turma o brinquedo preferido, a bicicleta. No quarto, exibiu orgulhoso o pôster do Pica-Pau, a toalha do Homem-Aranha e a colcha do Batman. O esperto gatinho de estimação também atraiu olhares dos companheiros. Depois, todos seguiram para a garagem e, acomodados no chão, acompanharam outro momento importante de um método pouco convencional de alfabetizar.

Foi quando a mãe de Daniel, a dona de casa Neri Carvalho, viveu seus 15 minutos de mestre e passou a ler para turma o clássico A lebre e a tartaruga. Depois de um rápido debate sobre a obra, atribuída ao fabulista grego Esopo, e pouco antes de retornar à escola, os alunos apreciaram o refrigerante e os quitutes, especialmente preparados por dona Neri.

Entre os convidados estava a professora Eliane de Paula Rocha, de 35 anos, responsável pelas visitas semanais às casas dos alunos. Ela percebeu que a interação entre a comunidade e escola tem grande potencial para alfabetizar. “No lugar de aprender o B de baleia – sendo que Minas não tem mar para que ele a veja –, o menino assimila melhor o B de Bruno, seus brinquedos e sua história”, explica.

Paralelamente, a iniciativa contribui para resgatar hábito de leitura entre família, que pode aproveitar o fim de semana para ler conjuntamente outros clássicos cedidos pela professora. “Os pais são os primeiros educadores”, assinala. A atividade não termina aí. Dentro da sala de aula, na semana seguinte, os estudantes registram numa folha, que traz a foto do aluno anfitrião, as impressões da atividade, redigindo sobre o brinquedo, o animal de estimação, a história contada pela mãe e a casa. Além disso, a professora trabalha a construção de frases a partir dos dados coletados na rua e no bairro percorrido.

Tomando por base, principalmente, a obra do educador Paulo Freire, que defende a alfabetização a partir da realidade do aluno, o projeto de Eliane, batizado de Minha escola, minha vida, começou a ser aplicado no ano passado. A professora lecionava para 18 alunos do 1º ano, na faixa etária de 6 a 7 anos, da Escola Municipal José Benedito Campara, distrito de Mantiqueira do Palmital. Na Zona Rural de Barbacena, ela conquistou o impressionante índice de 90% de alfabetização.

Os alunos foram avaliados no fim de 2008 numa prova diagnóstica, seguindo as diretrizes do Centro de Alfabetização e Escrita (Ceale) da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O resultado obtido por Eliane é duplamente significativo. Em primeiro lugar, o clico de alfabetização termina no 3º ano do ensino fundamental.

Além disso, o número foi obtido numa escola de zona rural, onde são escassos os recursos visuais. “O mundo letrado dessas crianças é muito mais pobre. As ruas não têm nomes e o comércio não possui identificação. Isso não ocorre na área urbana, onde as crianças são bombardeadas por outdoors, placas de propagandas, possibilitando uma inserção precoce no mundo letrado”, ressalta a idealizadora.

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