quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Cláudia Rezende e Jáder Rezende - 7/10/2009 - Hoje em Dia

Analfabetismo no Brasil só acaba em 20 anos, revela Ipea

Índice de brasileiros que não leem nem escrevem caiu de 17,2% para 10% da população

Vinte anos seriam o tempo necessário para o Brasil conseguir eliminar o analfabetismo. O índice relacionado ao problema caiu em 16 anos – de 1992 para 2008 – passando de 17,2% para 10% da população, mas isso significa que ainda existem cerca de 14 milhões de brasileiros acima de 15 anos incapazes de ler e escrever um bilhete simples. Essa é a medida internacional para se classificar o analfabeto.

Os dados foram divulgados nesta quarta-feira (7), na terceira análise feita pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) sobre a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) de 2008, que também abordou Gênero e Migração.

A análise do Ipea mostra que a taxa de analfabetismo está caindo 0,45 pontos percentuais ao ano. Mas a queda não está acontecendo por mérito das políticas públicas. Segundo o texto, a redução não ocorre entre indivíduos da mesma geração. A esperança do Brasil para a redução do analfabetismo é a morte da população idosa analfabeta.

O secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação, André Lázaro, discorda da projeção e análise do Ipea. Para ele, as políticas públicas de alfabetização estão funcionando. “Talvez não na velocidade que gostaríamos”, disse. O secretário observa que, em 2004, havia 32% de pessoas com 60 anos ou mais analfabetas.

Em 2008, o número caiu para 28%. Conforme Lázaro, o MEC trabalha com a meta estabelecida em Dakar, (Senegal), em 2000, de reduzir pela metade o analfabetismo até 2015. Com isso, o Brasil teria que chegar ao percentual de 6,7%. “Vamos chegar com folga”.
Segundo André Lázaro, o principal programa na área é o “Brasil Alfabetizado”, que terá 2 milhões de alunos em 2009. De acordo com o secretário, o maior contingente de analfabetos está no Nordeste. Entre os estados, o líder é a Bahia, com 1,8 milhão, seguido por São Paulo, com 1,5 milhão. Minas vem em terceiro lugar no país, com 1,3 milhão.

A reportagem tentou contato com representante da Secretaria de Estado da Educação para comentar o índice, mas a assessoria de imprensa informou que a fonte não estaria disponível.
Para a professora de Sociologia da UFMG, Danielle Cireno Fernandes, a política de educação voltada para adultos no Brasil é ineficiente. Ela acredita que deveria ser implantado algum tipo de estímulo pecuniário, como o Bolsa-Família ou o Pró-Jovem, também para a população mais velha.
Embora tenha estudado até a 8ª série, a dona de casa Viviane Chaves, 20 anos, pouco domina a leitura e a escrita. Ela abandonou os estudos aos 15 anos, ao descobrir que estava grávida. Viviane diz que tem vontade de voltar a estudar, mas o salário do marido, de um salário mínimo e meio, “mal dá para manter a casa e pagar o aluguel, muito menos pagar alguém para cuidar da menina”.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Programa revela avanços da alfabetização em Minas

Bianca Melo - Estado de Minas

Os dias se passavam sem que Ruan Giovani Alves, de 8 anos, aprendesse a ler e escrever. Só conseguiu quando uma professora generosa resolveu escrever exercícios no caderno dele e ensiná-lo as letras, sem permitir que ele deixasse de freqüentar as aulas com alunos da sua idade. Essa lição da professora Maria Cunha de Ardana e outros bons exemplos levaram a Escola Estadual Necésio Tavares, do Bairro Alto Vera Cruz, na Região Leste de Belo Horizonte, a entrar na lista das melhores da capital classificadas no Programa de Avaliação da Alfabetização (Proalfa), divulgada quarta-feira. Na rede estadual de ensino, a situação avançou: 72,5% dos alunos com oito anos matriculados no 3º ano do ensino fundamental sabem ler e escrever, contra 48,7% em 2006. Dos 27,5 que ainda têm dificuldade, 13,8% estão na classificação mais baixa: lêem apenas palavras soltas e não conseguem entender a frase.

A Escola Estadual Dr. Ovídio de Andrade, em Ipatinga, no Vale do Aço, é a primeira colocada entre as 2.450 avaliadas, com 719,93 pontos de proficiência em uma tabela com média de 500 e máximo de 800. A meta da Secretaria Estadual de Educação é acabar com a categoria de pior colocação até 2010 e chegar a 89% de crianças lendo e escrevendo segundo critérios recomendáveis para a idade. Para a secretária estadual, Vanessa Guimarães, é preciso comemorar os avanços de 2006 para cá, quando o resultado começou a ser medido no mesmo padrão. O aumento do percentual de alunos de escolas estaduais que mostram conhecimento recomendável é estímulo para a busca de avanço maior. “Já foi uma vitória e sabemos que, ao propor meta para melhorar, estamos nos lançando diante de uma aventura que vai exigir de todos um esforço grande.” Entre os alunos da rede municipal, os que tiveram desempenho recomendável foram 57%. Apesar de estar abaixo da média estadual, houve melhoria com relação aos 42,7% de 2006.

Para tentar melhorar os índices, a secretaria mantém 200 especialistas para ajudar as escolas a montar estratégias. O Proalfa tem informações de todos os municípios, todas as escolas e cada aluno. Recursos para reformas físicas também são liberados, segundo ela, principalmente para escolas do Norte de Minas e do Vale do Jequitinhonha. A classificação no exame acompanha a pobreza das regiões do estado. Das 46 superintendências de educação, a de Pirapora, no Vale do São Francisco, está na lanterna. As melhores colocadas são a de Monte Carmelo, no Alto Paranaíba, que lidera a lista da rede estadual, e a de São Sebastião do Paraíso, no Sul de Minas, primeira colocada entre os avaliados de escolas municipais. A secretária admite que as classes iniciais estavam fora do foco do governo. “Não apenas em Minas, mas no país todo foram criados modelos e houve o afrouxamento do sistema que permitiu formar crianças que não sabiam ler.”

Bom exemplo

Não foram recursos nem facilidades que levaram a escola Necésio Tavares a ocupar a boa posição em BH, com 654,85 pontos de proficiência. Depois de conversas com a equipe e de comprovar que havia jovens de até 14 anos que não conseguiam compreender frases, a diretora Marli do Carmo de Melo resolveu mudar. Tomou coragem para fazer um levantamento com a opinião dos pais sobre a administração, abriu as portas da escola para eles, instituiu encontros festivos para confraternização dos professores e reativou a biblioteca com empréstimos estendidos à comunidade.

Mensalmente, ela aplica um simulado aos alunos, instrumento usado para reavaliação. “Mas o melhor mesmo é ter amor por isto aqui, saber ouvir críticas e dividir tudo com a equipe”, diz, revelando o segredo para manter boa qualidade no ensino de 668 alunos (100 deles em horário integral) em uma área pobre e com poucos recursos. Recompensa que pode ser percebida no desenvolvimento do pequeno Ruan. “Gosto de animais e não falto à escola”, resume o menino curioso, que tem um tempo diferente dos outros, mas consegue ler um texto de seis frases.