segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O que explica o fracasso da alfabetização?

As informações que seguem foram encontradas no site do Cenpec (CENTRO DE ESTUDOS E PESQUISAS EM EDUCAÇÃO, CULTURA E AÇÃO COMUNITÁRIA).

Em uma sala de aula, a professora pede que seus alunos escrevam um simples ditado. Apreensivo, Joãozinho olha para os lados e, sem ter outra opção, começa a rabiscar no papel uma seqüência de letras que, juntas, formam palavras ininteligíveis. Joãozinho não sabe ler nem escrever. Ele está na 4ª série.

A situação fictícia descrita acima é facilmente identificável por muitos professores da rede pública no Brasil. Afinal, por mais que a frieza dos números aponte que 18% das crianças que chegam à 4ª série não estão alfabetizadas, é o professor quem sente na pele o drama de não conseguir ensinar crianças que freqüentam a escola diariamente a ler e a escrever corretamente. Mas por que isso acontece? Quais são as causas do fracasso da alfabetização no Brasil?

Universalização do Ensino Fundamental

Sempre que o assunto surge na pauta das políticas educacionais, passamos pela questão da universalização do Ensino Fundamental, cujo processo se iniciou a partir dos anos 1970 e se consolidou na década de 1990. Com o acesso à escola facilitado, muitas crianças que vivem em condições sociais mais vulneráveis passaram a freqüentar as salas de aula. As deficiências culturais desses alunos, decorrentes de um ambiente familiar em que os pais fazem pouco ou nenhum uso da leitura e da escrita, acabam tendo impacto direto em suas condições de aprendizado.

Um erro comum nesse tipo de análise é colocar a culpa na defasagem lingüística do aluno quando, na verdade, é a escola que fracassou em sua tarefa de alfabetizar. Como a universalização do Ensino Fundamental tornou as salas de aula mais heterogêneas, as escolas não aprenderam ainda a lidar com toda a diversidade cultural de seus alunos. “A maioria das crianças brasileiras atendidas pelas redes públicas de ensino tem acesso restrito à escrita, desconhece muitas de suas manifestações e utilidades. Por isso é importante que a escola, pela mediação do professor, proporcione aos alunos o contato com diferentes gêneros e suportes de textos escritos e lhes possibilite vivência e conhecimento”, explica Ceris Ribas da Silva, pesquisadora do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (Ceale), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Para Zoraide Faustinoni da Silva, pesquisadora do Cenpec, os professores falham ao tratar todos seus alunos da mesma forma. “Numa sala de aula existem alunos que sabem relacionar som e escrita, aqueles que não sabem e outros que escrevem, mas têm problemas de ortografia. Sem propor um diagnóstico para conhecer as dificuldades de cada um dos seus alunos, fica difícil alfabetizá-los.”

Formação de professores e condições de ensino

A falta de preparo dos professores também é apontada como um sério problema no processo de alfabetização. Para tentar capacitá-los melhor para a tarefa de ensinar as crianças a ler e escrever, o MEC criou, em 2001, o Programa de Formação de Professores Alfabetizadores (Profa). Mas, de acordo com Ceris, existe um problema estrutural maior, presente ainda na faculdade. “Sabemos que os alunos dos cursos de Pedagogia não saem preparados para ensinar as crianças a ler e a escrever. A formação superior do profissional da educação ainda não conseguiu desenvolver propostas que equilibrem teorias e metodologias de ensino adequadas, que conciliem a inovação e a tradição. É preciso, ao mesmo tempo, estar aberto às novidades (como procurar diferentes metodologias de ensino e aprendizagem), mas também desenvolver uma postura crítica e reflexiva como característica do profissional da educação”. Contudo, Ceris reconhece que falta um plano de carreira e salários dignos para que os professores possam se dedicar ao trabalho.

Aliado ao preparo ineficiente de boa parte dos professores, as condições das escolas públicas também se tornam um empecilho para a aprendizagem. “É fácil de constar como a maioria das escolas do país não são espaços agradáveis, atrativos e humanizados”, diz Ceris. Para uma formação de qualidade, ela defende uma ampliação maior do tempo de escolaridade. “A entrada da criança cada vez mais cedo na escola e a sua permanência em tempo integral seria o ideal. O que não pode são alunos pobres terem apenas quatro ou três horas de aula por dia”, acredita.

Métodos de alfabetização

Um outro fator freqüentemente apontado pelos especialistas para explicar o porquê de muitos alunos chegarem à 4ª série sem saber ler nem escrever é o método de alfabetização implementado nas escolas. Variações à parte, as metodologias podem ser agrupadas em dois grupos: os de marcha sintética, que parte dos elementos menores da língua (letra, fonema, sílaba) e os de marcha analítica, que têm como ponto de partida a palavra, a frase ou o conto. O primeiro método prevaleceu nas escolas públicas até a década de 1980, quando ele passou a ser questionado e foi perdendo espaço para o segundo, que passou a exercer mais influência ao levar em consideração para o processo de alfabetização o conceito de letramento, ou seja, o uso da leitura e da escrita nas diferentes práticas sociais. “Ao entrar em contato com textos que têm um significado social (jornais, propagandas, recados), a criança amplia o vocabulário, entende o significado das palavras e ganha maior fluência na leitura e na escrita”, explica Zoraide.

Contudo, nos últimos anos, o método de marcha sintética vem se tornando o vilão da alfabetização. “O letramento é uma conquista que não pode ser abandonada, mas é preciso chamar a atenção para a relação entre som e escrita e os aspectos fonéticos da língua”, acredita Zoraide. De fato, os métodos de base fônica mais recentes se baseiam na análise da relação entre letras e sons, assim como no desenvolvimento da fluência em leitura, do vocabulário e da compreensão. De qualquer forma, Ceris trata de contemporizar a questão. “Diante desses debates eu fico pensando como seria bom se os problemas da alfabetização pudessem ser resolvidos por um método seguro e eficaz. Já se pensou assim em diferentes momentos da história da nossa educação e pouco ou nada foi mudado. Acredito que as metodologias de ensino, por si mesmas, não são suficientes para assegurar resultados positivos, pois dependem sempre da sensibilidade do professor, de uma organização coletiva da escola e das redes de ensino”, esclarece.


Nenhum comentário:

Postar um comentário